Refletir e Participar

“Calar, às vezes, significa mentir porque o silêncio pode ser interpretado como aquiescência. Eu não poderia sobreviver a um divórcio entre minha consciência e minha palavra, que sempre formaram um excelente par.” (Miguel de Unamuno) ESTE BLOG É APOIO PARA O BLOG *REFLETIR E PARTICIPAR* www.refletireparticipar.blig.com.br

31 janeiro 2006

Medo e liberdade na Internet

Peter Singer - (*) Professor de bioética na Universidade de Princeton. © Project Syndicate. Fonte:O Globo

Soube-se no início deste mês que, a pedido do governo da China, a Microsoft fechou o website de um blogger chinês que era mantido por um serviço da empresa chamado MSN Spaces. O blogger, Zhao Jing, falava de uma greve de jornalistas no jornal Beijing News depois da demissão do seu editor, de temperamento independente.
A medida da Microsoft levanta uma questão-chave: a internet pode realmente ser uma força a favor da liberdade, que governos repressores não podem controlar tão facilmente como controlam jornais, rádio e televisão? Ironicamente, o fundador e presidente da Microsoft, Bill Gates, é um defensor entusiástico desta visão. Ainda em outubro último disse que “não há maneira de, em termos gerais, reprimir a informação hoje em dia, e acho que esse é um progresso maravilhoso, que deve animar a todos... Esta é uma mídia de total abertura e total liberdade, e é isso que a torna tão especial.”
E, no entanto, a Microsoft está ajudando as autoridades chinesas a reprimir informações. Uma porta-voz da empresa disse que a Microsoft bloqueou “muitos sites” na China, e já se sabe há meses que a ferramenta de blogs na China filtra palavras como “democracia” e “direitos humanos” em títulos de blog.
A empresa se defende dizendo que precisa “cumprir as leis locais e globais”. Mas os sites da MSN Spaces são mantidos em servidores nos Estados Unidos. As leis locais relevantes deveriam ser, portanto, as dos EUA, que não são violadas pela discussão de Zhao Jing sobre a greve de jornalistas em Pequim. Nem há leis globais que impeçam o povo chinês de discutir acontecimentos que seu governo prefere que não se discuta. O “New York Times”, por exemplo, tem liberdade para publicar informações sobre a greve, embora opere um website que pode ser lido por qualquer um com livre acesso à internet. Se o governo chinês não quer que seus cidadãos leiam um jornal estrangeiro, então que decidam como bloquear o acesso a ele. Isso não é obrigação do próprio jornal.
De forma que a defesa da Microsoft não faz sentido. Podemos apenas imaginar qual é a verdadeira razão pela qual ela fechou o site, mas o medo de que seus interesses comerciais na China fossem afetados parece ter sido um fator importante.
Por certo que uma empresa pode e deve impor limites ao uso de seus serviços. A posição extremada — que haja completa liberdade de expressão — não se sustenta em face de exemplos desconfortáveis. Segundo Gates, a Microsoft pode impedir o uso de seus serviços para divulgar instruções sobre a fabricação de bombas nucleares, para enviar propaganda nazista à Alemanha, onde isso é ilegal, e para difundir pornografia infantil.
Mas esses são exemplos relevantes? Na sua defesa clássica da liberdade de expressão, “On Liberty”, John Stuart Mill argumentou que a razão mais importante é promover competição entre as idéias mais distintas, e que o debate sem restrições é a melhor forma de testá-las. Se o governo protege as idéias da crítica, torna-as dogma rígido e sem vida, sejam ou não verdadeiras.
Se concordamos com Mill, então só um dos exemplos de Gates cai na categoria de expressão que deve ser protegida. Receita para fazer bomba nuclear é técnica, não idéia. E pornografia infantil também não é expressão de idéias. Podemos, portanto, restringir as duas sem contrariar a posição de Mill. (Já um ensaio dizendo que não há nada de errado em adultos terem interesse sexual em crianças e que essa conduta deve ser permitida exprime idéias, e, portanto, não deve ser censurado, por mais repulsivas que consideremos essas idéias.)
O mais difícil dos três exemplos de Gates é o da propaganda nazista. É fácil compreender a proibição alemã. Vários países proíbem a incitação ao ódio racial, o que pode ser justificado, consistentemente com a defesa da liberdade de Mill, se essas leis realmente focalizam unicamente a incitação ao ódio, e não tentam suprimir argumentos que se dirijam à capacidade intelectual das pessoas.
Um defensor da supressão de idéias nazistas pode sustentar que elas já tentaram, e fracassaram da maneira mais horrenda, produzir uma sociedade melhor. No entanto, o melhor sinal possível de que a Alemanha superou seu passado nazista seria o de que ela focalizasse suas leis especificamente na incitação ao ódio racial, e não unicamente no nazismo.
Em qualquer caso, o ataque da China à informação e à discussão de acontecimentos naquele país não é supressão de uma ideologia política desacreditada, mas do debate aberto e informado. Se Bill Gates acredita mesmo que a internet deve ser uma força libertadora, deve cuidar que a Microsoft não faça o trabalho sujo do governo chinês.

30 janeiro 2006

Eficiência na Blogosfera

Mario Lima Cavalcanti - http://www.comunique-se.com.br


França é uma nação blogueira. A frase é da consultora alemã em mídia interativa Katja Riefler e foi postada no weblog E-Media Tidbits nesta semana. Na situação, Riefler diz ter aprendido (lendo a Digital Lifestyle Day) que os blogs possuem uma audiência tão grande quanto a das mídias tradicionais. Os dados coletados pela consultora comprovam não só a grandiosidade da Blogosfera, como também sua eficiência.
Segundo Riefler, de acordo com o vice-presidente da Six Apart Loic Le Meur, 17 milhões ou 73% dos internautas franceses estão familiarizados com os blogs. Le Meur aponta que 6,7 milhões lêem weblogs e cerca de 1 em 10 usuários já criou um weblog.
A questão aqui não é mostrar a França como uma supernação blogueira (até porque o Brasil não fica atrás), mas sim se apoiar num evento para mostrar, assim como uma colônia de formigas, o quanto eficazes podem ser os elos da Blogosfera e as informações disseminadas via weblogs.
Um exemplo claro de tal eficácia citado pela consultora - e assino embaixo em termos de veículos e propagação de informações realmente relevantes, pois percebi o mesmo impacto - foi o dos conflitos recentes ocorridos em Paris. De acordo com Riefler, no episódio Le Meur teria postado um vídeo do ministro da cultura da França que gerou 100 mil downloads e 500 comentários.
Em tal evento os weblog se mostraram durante todo o ocorrido - assim como na invasão dos Estados Unidos ao Iraque - uma importante porta de comunicação em diversos sentidos. Mais que isso, mostra com clareza a natureza e a proposta do jornalismo cidadão, que não necessariamente precisa estar sob a bandeira de um conglomerado ou de um site de jornalismo colaborativo.
1/24/2006

29 janeiro 2006

Conta tudo, Duda

Augusto Nunes - http://nominimo.ig.com.br/

29.01.2006
O marqueteiro Duda Mendonça preparou com minúcia e requinte o depoimento de Duda Mendonça na CPI dos Correios. No começo de agosto de 2005, ele foi içado do grande pântano pelo puçá escalado para o resgate de donos de contas bancárias suspeitíssimas. Já sentindo na nuca o bafo dos investigadores, planejou o contragolpe.Voluntariamente, irromperia no Congresso uma única e espetaculosa exibição. A performance previa passes de calcanhar, lançamentos de trivela, pedaladas de Robinho, chutes de letra, gols de bicicleta, o diabo. Feito isso, era correr para o abraço e, depois, para o mar da Bahia. Só ignorou a histórica lição de Garrincha: não combinou com os adversários o que desejaria fazer.No dia 11 de agosto de 2005, o marqueteiro do rei irrompeu sem aviso prévio na sala da CPI, escoltado pela sócia Zilmar Fernandes, companheira de tabelinhas. Durante quase oito horas, seguiu aplicadamente a estratégia que montara, enriquecida por retoques visuais e dramáticos golpes de cena.Os cabelos ralos informavam que pentes não passava por ali havia tempos. A camisa de mangas curtas sugeria simplicidade, desapego, gente como a gente. Chorou com capricho, feito ator de novela mexicana. Terminada a exibição, petistas choravam também. Oposicionistas se comoviam com o patriotismo do cidadão Luiz Eduardo Cavalcanti de Mendonça. A flor de sinceridade foi herói por algumas horas.No depoimento, contou que recebera do vigarista Marcos Valério um ultimato: ou abria uma conta no exterior ou não receberia um só tostão do PT. O tamanho do débito – cerca de 13 milhões de dólares – dispensou-o de dúvidas aflitivas. "Era a única maneira de conseguir a quantia estabelecida em contrato", desculpou-se, olhos marejados. A platéia, emocionada, assentiu com balanços de queixo.A conta homiziada em Miami, sob a guarda do BankBoston, tem o nome de Dusseldorf. (Boa escolha. Lembra aquele vampiro). Duda jurou que jamais cometera esse tipo de pecado. Só transgredira em Dusseldorf. Não tinha dinheiro em outros países, não movimentava contas em bancos lenientes. Mas havia muitos pecadores agindo à sombra do partido da ética, ressalvou.Pormenores perturbadores sublinharam a descrição da lavanderia de dinheiro instalada no exterior por vestais decaídas do PT. Duda acabou reconhecendo que a Dusseldorf era uma conta-ônibus, utilizada para a consumação de bandalheiras. Alguns horrores depois, ele deixou a CPI com cara de coroinha. Achou que estava abandonando o palco. O depoimento seria o prólogo de um drama ainda longe do fim.Já no meio da discurseira, integrantes da CPI perceberam que Duda estava contando só uma parte da história – e retocada. Nas semanas seguintes, comprovou-se que Duda tem uma penca de contas no exterior. É um veterano no ramo do enriquecimento em dólares. Reportagens recentes da revista Veja comunicam que Duda, sempre ouvido com atenção por caçadores de votos, merece ser ouvido com atenção redobrada por caçadores de pilantras. O publicitário milagreiro e o candidato a tudo Paulo Maluf conviveram anos a fio. Aparentemente, trocaram proveitosos segredos profissionais. Graças aos craque em ilusionismo eleitoral, Maluf aprendeu a não empinar o queixo, demitiu os aros truculentos dos óculos. Graças às lições do homem que fez São Paulo (fora o resto), Duda aprendeu a consumar tenebrosas transações a muitos quilômetros das fronteiras do Brasil.Inquieto com o bombardeio crescente, Duda anda mandando recados ameaçadores a antigos parceiros. Se tentarem puni-lo, vai revelar o muito que sabe. É uma notícia excitante para um país às voltas com tantas perguntas sem resposta. Conta tudo, Duda.

28 janeiro 2006

A lei já existe, senhor ministro!

Carlos Chaparro - http://www.comunique-se.com.br


O XIS DA QUESTÃO – Não precisamos de novas leis para proteger a inviolabilidade das comunicações telefônicas. Há leis suficientes para processar, julgar e condenar não só os jornalistas que violam o segredo de justiça ou agridem a honra alheia com a transcrição de gravações clandestinas, mas também os juízes, promotores e policiais que, levianamente, ou por interesses não revelados, espalham ao vento, pela imprensa, as conversas gravadas.
1. Casuísmo ou autoritarismo?
Se é verdade que o ministro Márcio Thomaz Bastos andou por aí anunciando o propósito de propor uma nova lei para inibir e punir transcrições jornalísticas de conversas telefônicas grampeadas, terá Sua Senhoria perdido uma bela ocasião de ficar calado. Em o primeiro lugar, porque a lei já existe, tanto na esfera penal quanto na esfera civil. Só que não é levada a sério. Em segundo lugar porque, atrás dessa idéia de que “precisamos controlar esses jornalistas”, percebe-se, claramente, um perigoso impulso autoritário, mais um, deste governo repleto de gente que, em outras épocas, tanto estimulava e apreciava a transcrição de conversas telefônicas violadas.
A ameaça do ministro não passa, portanto, de bravata casuística. Mas não deixa de ser uma proposta surpreendente, por vir ela de quem vem, de um jurista com biografia e imagem de civilista, vinculado a lutas e escolhas de cidadania, liberdade e direitos humanos.
A questão, entretanto, não pode ser reduzida a polemicazinha oportunista, na moldura de ocasionais conveniências político-partidárias. Olhando as coisas por esse lado, o quadro de incoerências é lamentável. Nos tempos do governo tucano, era o pessoal do PT (incluindo famigerados nomes do Ministério Público) que adorava a entrega clandestina de gravações a jornalistas. Considerava-se missão partidária conseguir a divulgação de qualquer grampo com denúncias ou indícios que envolvessem gente do tucanato. Por seu lado, a argumentação tucana de então se apegava à forma e ao espírito da lei, em favor do direito à privacidade telefônica, à inviolabilidade da honra e à presunção de inocência. Para os tucanos, na era FHC, transcrever conversas grampeadas era crime, quer o grampo fosse ilegal ou autorizado pela Justiça.
Agora, curiosamente, os pontos de vista e os argumentos se invertem, porque quem era oposição virou governo, e quem era governo se tornou oposição. Assim, enquanto o governo esperneia e ameaça quando é vítima dos grampos transcritos, a oposição de agora acha uma beleza a violação de conversas telefônicas, e a sua divulgação pública, se isso ajudar a enfraquecer o governo.
Só os jornalistas, ou pelo menos, entre eles, aqueles para quem tudo vale pela notícia (e não são poucos), mantêm a mesma posição: ontem como hoje, continuam achando que divulgar grampos é um feito profissional digno de aplausos e um serviço prestado à democracia. Será?
2. Vulgarização criminosa
Essa coisa da transcrição jornalística de conversas violadas é, sem dúvida, uma questão complicada. Trata-se de prática transformada em costume, que afronta princípios e valores de cidadania firmados na Constituição. Costume tão vulgarizado que, mesmo sendo essa uma prática criminosa, até a sociedade, com seu silêncio, parece aceitá-la como coisa boa.
No cerne da questão está a verdade estabelecida pela Constituição de 1988, em um dos incisos do Artigo V, aquele dos direitos individuais e coletivos.Diz o inciso XII: “É inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e de comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer, para fins de investigação criminal ou instrução processual penal”.
Depois de uma ditadura militar que, sem preocupações com a lei nem com a cidadania, usou intensamente a espionagem telefônica e outras formas de invasão, o inciso XII do artigo 5º representa um notável avanço de cidadania, na sociedade brasileira. E é isso que está em jogo, não os interesses ocasionais, político-partidários, do PT ou do PSDB.
Os direitos assegurados por esse inciso XII, entre eles, em especial, o da inviolabilidade das comunicações telefônicas, foram claramente regulamentados pela Lei n. 9.296, 24 de julho de 1996. Eis aí uma lei que deveria fazer parte do acervo básico de referências éticas, para o trabalho de qualquer jornalista. E que deveria estar sobre a mesa do ministro Thomaz Bastos.
O que diz a lei? Vale a pena detalhar, porque isso nos interesse, se é que, como jornalistas, alguma coisa temos a ver com a qualidade cívica e ética da Nação que ajudamos a construir - já que essa é, supostamente, uma das contribuições inerentes à atividade jornalística de informar e comentar a atualidades.
Diz a Lei, em seu artigo 1º, que a interceptação de comunicações telefônicas, de qualquer natureza, “para prova em investigação criminal e em instrução processual penal, (...) dependerá de ordem do juiz competente (...)”. E mais: no artigo 2º se diz que o juiz está impedido de admitir a interceptação quando ocorrer qualquer das seguintes hipóteses: a) a inexistência de indícios razoáveis de autoria ou participação em infração penal; b) se a prova puder ser produzida por outros meios; c) se o fato investigado constituir infração penal punida no máximo, com pena de detenção.Portanto, não se pode autorizar o grampeamento de conversas por “dá cá aquela palha”. Nem ao sabor de emoções políticas ou interesses partidários de ocasião.
3. Lei para todos
Depois de detalhar os limites e as formas dos procedimentos técnicos, a Lei 9.296 estabelece (artigo 8º) que “a interceptação de comunicação telefônica, de qualquer natureza, ocorrerá em autos apartados, (...) preservando-se o sigilo das diligências, gravações e transcrições respectivas”. E o artigo 9º determina que “a gravação que não interessar à prova será inutilizada por indecisão judicial, durante o inquérito”.
O artigo 10º é claro e incisivo: “Constitui crime realizar interceptação de comunicações telefônicas (...), ou quebrar segredo de justiça, sem autorização judicial ou com objetivos não autorizados em lei. Pena: reclusão de dois a quatro anos e multa.”
Quando a divulgação dessas transcrições viola a honra de alguém, temos ainda o Código Penal, cujo artigo 151estebelece que comete crime, e incorre em pena de um a seis meses, ou multa, “quem indevidamente divulga, transmite a outrem ou utiliza abusivamente (...) comunicação telefônica entre outras pessoas”. E (parágrafo 2º) “as penas aumentam-se de metade, se há dano para outro”.
Portanto, senhor ministro Márcio Thomaz Bastos, não precisamos de novas leis de proteção à inviolabilidade das comunicações telefônicas. Há leis suficientes para processar, julgar e condenar na só os jornalistas que violam o segredo de justiça ou agridem a honra alheia com a divulgação de gravações clandestinas, mas também os juízes, promotores e policiais que, levianamente, ou por interesses não revelados, entregam cópias das gravações à imprensa, jogando no lixo o segredo de justiça pelo qual deveriam zelar.
Afinal, senhor ministro, todos são iguais perante a lei. E se há crime na divulgação jornalística de gravações (e há), ele tem um percurso que se inicia bem antes das cópias chegarem às redações.
1/27/2006

15 janeiro 2006

Baixaria e insanidade

por Paulo Leite

No Brasil assim como aqui nos Estados Unidos, causa espanto o baixo nível e a intolerância – sem falar na ignorância – dos militantes de esquerda. Qualquer pessoa que não concorde com suas idéias é tratada como inimigo, puro e simples, como algo menos que um ser humano.
Não preciso nem falar da insana oposição ao presidente George W. Bush, que só não foi acusado ainda de pedofilia ou bestialismo. No mais, já foi acusado de tudo, na maioria das vezes sem a menor prova ou lógica. Bush não é o único, no entanto. Nos Estados Unidos, qualquer conservador está arriscado a sofrer ataques pessoais dos mais desprezíveis.
No momento, o alvo da baixaria esquerdista por aqui é o juíz Samuel Alito, nomeado por Bush para uma vaga na Corte Suprema. Como Alito é eminentemente qualificado para o cargo, os senadores democratas que participam das sessões de confirmação do juíz foram buscar – com o auxílio dos mais díspares grupelhos esquerdistas – antiqüíssimas afirmações ou decisões de Alito, com a intenção de pintá-lo como racista, inimigo das mulheres ou dos menos privilegiados.
Na sessão de quarta-feira, 11 de janeiro, os ataques de senadores como Charles “Chuck” Schumer e Ted Kennedy bateram todos os recordes de baixaria, a ponto de levar a mulher do juiz a abandonar a sala chorando. O senador republicano Lindsey Graham teve que pedir a palavra para pedir desculpas a Alito e sua família.
Qualquer criança sabe que os democratas só têm um motivo para se opor a Samuel Alito: suas opiniões contra a forma como o aborto foi liberado nos EUA, pela ação de um punhado de juízes e não pela via legislativa, como seria de esperar numa sociedade democrática.
Para evitar uma possível revisão da decisão do caso “Roe x Wade”, vale qualquer ataque, não importa quão absurdo ou vil. Na Internet e em alguns ralos protestos de rua, a turma da esquerda festiva americana faz festa e pede ainda mais ataques. Tristeza.
Falando em tristeza, cada vez me inclino mais a aceitar o ponto de vista de que o esquerdismo de hoje em dia é quase uma doença mental. Como classificar, por exemplo, a carta de um leitor publicada na Folha de São Paulo sobre o suicídio do general José Elito Siqueira? Escreve o leitor:"A morte por suicídio do general brasileiro no Haiti talvez tenha motivações mais profundas do que as noticiadas.
A alma do indigitado oficial, formada para a defesa e os interesses da pátria, não resistiu quando testemunhou impotentemente a tragédia do modelo globalizado neoliberal, que, lá como cá, excluiu imensas massas de desvalidos, empurrando-os para uma vida quase animalesca de convivência social.
"Só as esquerdas, mesmo, para descer a um nível tão baixo. Para politizar uma tragédia ainda não esclarecida, para moldá-la à sua visão pré-concebida do mundo. O leitor José de Anchieta Nobre de Almeida (Nobre? Quanta ironia num nome só), do Rio de Janeiro, é além de tudo mal informado. O Haiti está longe da globalização, do neoliberalismo. Seus problemas têm mais a ver com incompetência e corrupção à brasileira do que com um inexistente liberalismo em sua quase inexistente economia.
Falando em sandices esquerdistas, o Brasil não perde a mania de copiar o que de pior existe aqui pelos Estados Unidos. Agora é a divisão da sociedade em grupos raciais, que tantos danos causou e continua causando por aqui.
O “Estatuto da Igualdade Racial” que o Senado já aprovou e a Câmara está para aprovar, vai tornar obrigatória a classificação racial dos brasileiros, vai estabelecer conceitos raciais na educação, trabalho e saúde, vai acabar – em resumo – com a igualdade entre os cidadãos.
Além de transformar os “afro-brasileiros” em figura jurídica, o estatuto favorece a criação de cotas para empregos públicos e nas negociações entre governo e empresas privadas. Como escreve o jornalista Demétrio Magnoli na Folha, o estatuto “estimula a criação de uma infinidade de novos cargos públicos reservados, por lei, a dirigentes de ONGs ‘representativas dos afro-brasileiros’."
Pior: o “Estatuto da Igualdade Racial” oficializa o conceito de "reparação histórica" (conhecido como “reparation” por aqui, ou “rape-a-nation” na expressão do radialista Michael Savage). Explica Magnoli: “a ‘nação branca’ deve reconhecer-se como herdeira dos proprietários de escravos e pagar reparações à ‘nação afro-brasileira’.”Dividir o Brasil em dois, em pleno século 21. Se isso não é insanidade, não sei o que é.

Além do mais, se não podemos com um Brasil só, como vamos lidar com dois?

14 janeiro 2006

Coisa de circo

Moacir Japiassu

Coisa de circo
O considerado Lineu Tavares, de São José dos Campos, escutou no rádio que a deputada Ângela Guadagnin, do PT de São Paulo e, segundo ele, “ex-péssima prefeita” de sua cidade, inventou um projeto de lei que proíbe a presença de animais em espetáculos circenses. Lineu ficou revoltado:
Se proibirem os bichos, o que os circos vão apresentar, além de mágicos, palhaços e anões? E esses nós já temos às dúzias no Congresso Nacional...
Janistraquis acha que Lineu Tavares esqueceu a mulher barbada.
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Morte no inferno
Deu em jornais daqui e d’alhures: Laudo indica suicídio de general brasileiro no Haiti
Eu, que aprendi a desconfiar de Deus e todo o mundo, botei os dois pés pra trás, duas pulgas atrás de cada uma das orelhas e, pra completar, mergulhei a barba naquela água limpinha onde prolifera o mosquito da dengue. “Aí tem!”, disse a meus zíperes, porém Janistraquis escutou e disparou esta e definitiva opinião:
“Considerado, é claro que o homem se matou; você desconfia porque nunca esteve no Haiti...”, suspirou meu secretário, que certa vez, em missão jornalística a serviço do falecido jornal Notícias Populares, foi obrigado a fazer pouso forçado num terreno baldio mais tarde identificado como o aeroporto de Porto Prínipe.
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Extrema veadagem
A considerada Daise Cristina Moraes lia o Estadão quando lhe feriu os olhos o seguinte e herético textinho, pisoteado pelo título PADRE QUE REZOU MISSA VESTIDO DE ORIXÁ É AFASTADO:
(...) Ao saber que um grupo de paroquianos havia encaminhado um abaixo-assinado pedindo seu afastamento da paróquia, na última missa da Festa de Reis ele teve um ataque histérico dizendo que só sairia da Igreja da Lapinha, onde está a 33 anos, "morto".
Daise comentou:
Ao que parece, até no velho e sábio Estadão o pessoal desconhece a diferença entre a preposição "a" e o verbo "haver", para desespero do considerado José Inácio Werneck e seus pares; ah,ah,ah...
Segundo Janistraquis, que foi coroinha por necessidade, qualquer errinho do jornal torna-se ínfimo diante da sesquipedal veadagem do piedoso sacerdote.
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LiteraturaRascunho, “o jornal de literatura do Brasil”, como se autodenomina, é editado em Curitiba, reúne excelentes críticos, entre os quais seu diretor, Rogério Pereira, e inaugurou novo site. Faça uma visita, aproveite para assinar a versão impressa e ajude a divulgar o jornal. “Quem gosta de ler, não pode perder”, avisa Janistraquis.
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Exagero
Sob o título O dono da África, a chamadinha na capa do UOL convidava à leitura de matéria da Raça Brasil, embora o texto só estivesse disponível para assinantes da revista:
O publicitário Nizan Guanaes diz que o negro na propaganda é sinônimo de sofisticação e que só não aparece com igualdade nos comerciais porque a sociedade brasileira é que é desigual.
Janistraquis, que, como tantos e tantos neste país de m..., vê o negro como perfeito sinônimo das injustiças dessa sociedade brasileira tão desigual, como o próprio Nizan admite, acha que o próspero e inteligente baiano exagerou na criatividade:
“Considerado, será que o publicitário está mesmo convencido de que basta uma boa campanha para eliminar todas as dificuldades dos negros e transformar a miséria em charme e sofisticação? Isso só pode ser herança do marketing político, pois afinal foi outro baiano também esperto quem transformou um operário não muito letrado em presidente do Brasil.”
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De levantar defuntoO considerado Camilo Viana, diretor de nossa sucursal em Minas Gerais, enviou notinha publicada no caderno Cidades, do Diário da Tarde de BH. Ali, sepultado sob o título SAUDADES - Arromba túmulo para rever o grande amigo, lê-se:
O servente de pedreiro Edson Vieira foi preso em flagrante, depois de violar a sepultura de um amigo, conhecido como Zé Grande , morto no dia 7 de dezembro do ano passado, em Conselheiro Lafaiete, a 96 km de BH. De acordo com testemunhas, Édson foi ao cemitério, e alegando que iria fazer reparo em um dos túmulos, pegou algumas ferramentas e arrombou a sepultura.
Depois, o servente retirou o caixão com o corpo do amigo e abriu. Funcionários da administração do cemitério acionaram a Polícia Militar, que prendeu o acusado. Édson afirmou que queria apenas ver novamente o amigo, pois estava com muita saudades dele.
Camilo achou normal, pois “como diz Mílton Nascimento, também conhecido como Bituca, amigo é pra se guardar...”; porém Janistraquis, que na juventude comeu muito frango de macumba com cachaça, garante: pelos sintomas, o acusado tomou tantas na passagem do ano que tá de porre até hoje.
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Desastre de trem
O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal no DF, de cujo varandão escancarado é possível acompanhar a indignação de Bernardo Kucinski contra os jornalistas, pois Roldão lia o caderno Turismo, do Correio Braziliense, quando fez baldeação na matéria intitulada Aventura sob trilhos. Aí o Mestre embarcou nesse verdadeiro Expresso da ignorância e teceu tantos comentários que o espaço da coluna ficou pequeno.
Leia no Blogstraquis a minuciosa diatribe de Roldão.
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Nota dezA entrevista que o considerado Augusto Nunes concedeu ao Jornal do Commercio deveria ser copiada e distribuída a instituições públicas e privadas de todo o país – e ainda lida e repetida na Voz do Brasil, se tivéssemos um governo democrático. Leia um trechinho e confira a íntegra no Blogstraquis:
(...) Na hora em que surgirem os candidatos, quaisquer que sejam, o Lula não vai mais poder posar de rainha da Inglaterra, como na campanha passada. Ele podia se recusar a dar entrevistas, a ir a debates...; dessa vez Lula vai precisar dos debates. Agora, não será um debate com jornalistas, que estarão amedrontados ou não terão direito a réplicas. Vai ser um debate que questionará o crescimento econômico e um governo que não tem obras físicas para mostrar porque caiu na falácia.
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Colaborem com a coluna, que é atualizada às quintas-feiras: Caixa Postal 067 – CEP 12530-970, Cunha (SP) ou moacir.japiassu@bol.com.br).

13 janeiro 2006

Isso não é um cachimbo

por Angela Liberatti


René Magritte, artista belga surrealista, morto na década de 1960, em uma de suas obras mais interessantes pintou, em uma tela de fundo amarelado, um cachimbo representado quase que como uma foto. Abaixo da figura, o pintor colocou a inscrição: isso não é um cachimbo.
O quadro que provocou muitas discussões, também permite refletir sobre como imagens são poderosos meios de divulgar idéias. O pintor conseguiu, de forma brilhante, fazer pensar e questionar a arte tradicional e a postura conservadora tanto dos críticos de arte como da elite entendida e entediante.
As imagens que a mídia brasileira, e também internacional, mostra de D. Marisa da Silva são, assim como o cachimbo que não era cachimbo de Magritte, uma primeira-dama brasileira que não é uma primeira-dama.
Figura quase que ignorada pela mídia e, aparentemente, tida como discreta nada mais faz do que divulgar a imagem de uma mulher submissa e inativa economicamente. Exatamente o contrário do que se espera de uma primeira-dama que, pela posição privilegiada dentro do Estado, poderia atuar em muitas áreas. Distante e alheia das decisões políticas importantes, ausente de projetos sociais necessários e urgentes coloca-se, D. Marisa da Silva, como uma figura secundária que contribui para gerar uma falsa e perniciosa impressão de que o papel da mulher é o de estar presente, e calada, atrás de um homem.
Essa mulher, que não é uma primeira dama, já que não se porta como tal, acaba sendo apenas uma mulher que se expõe publicamente em situações constrangedoras que chegam ao ridículo, como a de ser esquecida dentro do carro pelo marido-presidente em uma viagem a Inglaterra ou então, de andar atrás dele protegendo-o da chuva com uma sombrinha e, ela própria, se molhando, como foi mostrado em primeiras-páginas dos jornais que cobriam uma das viagens internacionais do presidente.
Posturas como essas contribuem para que ainda se trate desigualmente e, muitas vezes, de forma desrespeitosa a mulher, principalmente no Brasil, país de tradição colonial patriarcalista.
Uma primeira dama, pela própria natureza do cargo, tem facilidades que permitem uma atuação intelectual importante, seja na área social, cultural ou outra qualquer. A divulgação de um trabalho consistente ajudaria a consolidar a posição de outras mulheres em um país que, segundo dados do Censo de 2000, grande parte das famílias são chefiadas e sustentadas financeiramente por mulheres.
Assim, uma primeira-dama que apenas chama atenção pelo que não faz acaba por desvalorizar a própria capacidade da mulher. Poderia além de acompanhar o marido, atuar como líder de projetos sociais para não ser vista como parasita em uma sociedade pobre como a brasileira.
Além disso, prestou um desserviço à nação quando, por capricho ou falta de informação, mandou plantar uma estrela de pequenas flores vermelhas no jardim do palácio do Planalto localizado em uma cidade de arquitetura exemplar e que é considerada, pela Unesco, como um Patrimônio da Humanidade.
Publicado em 11/01/2006

12 janeiro 2006

LULA EM CARACAS: CHAVES EXIGE AUTOCRÍTICA

REPASSANDO
Política & Verdade - Ajude a combater a mentira
Terça-feira, 10 de janeiro de 2006 Ano IV -n.º623

Aos "nacionalistas" de plantão: "O Fórum (Social Mundial), na verdade, é um negócio rentável dos franceses do suplemento do Le Monde Diplomatique".

Pressão do Fórum Social de Mundial, que os gaúchos enxotaram

Os radicais brasileiros estão resistindo ao plano do Palácio do Planalto de obter para Lula uma manifestação "impressionante" durante o Forum Social Mundial, em Caracas, destinada a repercutir no Brasil e restaurar, a base esquerdista que sempre o sustentou e que agora o
abandona. O Fórum, na verdade, é um negócio rentável dos franceses do suplemento do Le Monde Diplomatique.
O presidente Hugo Chaves quer que Lula faça uma autocrítica solene, em praça pública, e declare que errou por não ter feito o que fez o Presidente da Venezuela, que subverteu as instituições
nacionais e mantém o país em crise permanente. Em seguida, prometerá que, se vencer a reeleição, transformará o País numa grande Venezuela.
Lula, que não esquece o fato de que só venceu em 2002 por ter conseguido o apoio da classe média e que a corrupção do seu governo foi tocada pelo próprio PT, quer receber uma consagração em Caracas, mas teme que o tiro saia pela culatra.
O Presidente terá que assumir o radicalismo que nunca lhe rendeu mais de 30% dos votos e que esta longe de lhe garantir a reeleição no Brasil. Chaves alega que seu populismo de esquerda que já deu
certo na Bolívia, pode dar certo no Brasil.

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DUDA: CONTAS NO EXTERIOR E CONVERSA NO TORTO
Duda Mendonça repetindo o que fazia na campanha eleitoral de 2002 - só se entendia direto com Lula (menos para cobrar os dólares combinados, que era tarefa do "nosso Delúbio") foi à Granja do
Torto, onde conversou longamente com o Presidente.
A revelação não foi contestada pelo Palácio , mas confirmada por fato concreto. Por que a Petrobrás, arrostando todos os riscos de estar negociando com um publicitário réu-confesso de receber dólares do Valerioduto, manteve o contrato de propaganda com Duda Mendonça? Resposta: a Petrobrás renovou o contrato milionário com o marqueteiro em função do encontro secreto que Lula manteve com Duda na Granja do Torto.
Os palpites mais generosos falam em chantagem, mas reconhece-se que a visita de Duda tinha a ver com o contrato com a Petrobrás e que Lula foi colocado contra a parede. Duda insistiu, bateu o
pé, e uma semana depois a Petrobrás anunciou que mantinha a sua conta.
Aliás, o novo marqueteiro do Presidente, o publicitário Doutor Patinhas, já despacha no Palácio do Planalto e foi colocado lá pelo próprio Duda Mendonça.

11 janeiro 2006

"Lula eliminou a necessidade da imprensa"

Alice Sosnowski, especial para a Agência Repórter Social
Fonte:Repórter Social


Desde 1998, o jornalista e professor dedica-se a fornecer a Lula uma análise crítica sobre a relação do presidente com a mídia: “Ninguém tem coragem para dizer a verdade para o presidente claramente e eu digo todos os dias de manhã”.
A rotina do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem uma constante: a leitura obrigatória, todas as manhãs, de um documento conhecido como “carta crítica”. Uma resenha do que saiu na imprensa sobre o governo naquele dia. Nela, o presidente tem acesso a uma análise apurada do noticiário. Recebe críticas, sugestões, advertências e até broncas. Algumas vezes, em seus discursos, Lula reclama da acidez dos que acordam mal-humorados. Nestas ocasiões, ele se refere ao autor da “carta crítica”, o jornalista e professor da USP Bernardo Kucinski. Não é para menos. Para produzir a resenha, Kucinski acorda às 5 da manhã, percorre os jornais nacionais, internacionais e faz uma análise da conjuntura a partir do que leu. No documento, o "chato do Kucinski", como é conhecido nos corredores do Planalto, tece comentários sobre as ações do governo, suas repercussões e analisa as matérias da imprensa no que elas trazem de mais interessante: as entrelinhas. A prática de escrever esta resenha para Lula começou ainda nas eleições de 1998, quando o jornalista percebeu que uma leitura crítica do noticiário poderia ajudar o então candidato a presidente. Kucinski, que era colaborador da campanha, passou a enviar relatórios diários – conhecidos como "cartas ácidas" - a Lula. Em 2000, estas cartas foram publicadas em livro. Já na campanha de 2002, dentro da lógica do "Lulinha paz e amor", as “cartas ácidas” se tornaram "cartas críticas" e assumiram um tom mais ameno. Lula venceu e quando chegou ao Planalto continuou recebendo o material do agora assessor especial da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica. Além do presidente, poucos colaboradores têm acesso ao conteúdo da resenha. Na entrevista a seguir, o autor das "cartas críticas" fala sobre o governo Lula ("decepcionou muito"), sobre a imprensa ("a palavra de ordem é linchar") e sobre o papel dos jornalistas na cobertura da crise política ("eles estão fazendo uma cruzada moral"). Por último, mas não menos importante, Kucinski também critica a atuação de Duda Mendonça no governo – “ele atuou dos dois lados do balcão” - e aponta problemas na área de comunicação do governo. Confira a entrevista dada a Alice Sosnowski, especial para a Agência Repórter Social:
Repórter Social - Qual a diferença das "cartas ácidas" feitas para o candidato Lula na campanha de 1998 para a "carta crítica" dirigida ao presidente?
Bernardo Kucinski - A própria nomenclatura já tem um significado de mudança. O Lula achava que eu era ácido demais e muito mal-humorado, sempre vendo o lado negativo e então, por sugestão dele mesmo, mudamos para uma coisa mais amena, pois você pode ser crítico sem ser pessimista. O nome não mudou só porque ele virou presidente, mas já na campanha de 2002. Ele achou que não podia sair de manhã com raiva da imprensa, pensando mal das coisas, e a carta ácida realmente era ácida. Então, por exigência dele, mudamos o nome para carta crítica. No sentido de ser algo mais propositivo, menos mal-humorado. Porque na campanha o Duda Mendonça disse para o Lula aquela história de "Lula paz e amor": E você lê aquela coisa do Kucinski e já sai de mau-humor. Isso não é bom. Então, começou ali essa mudança de postura, uma coisa menos ácida. Quando o Lula virou presidente, foi mantido o nome carta crítica.
Repórter Social - Como você avalia a relação da imprensa com o presidente Lula?
Kucinski - Sempre foi muito ruim. Ele sempre foi muito maltratado pela imprensa, tirando alguns períodos - como em certo momento da greve de 1978. Fora alguns períodos, ele sempre foi muito desrespeitado. Os jornalistas não aceitam um líder político que não tenha diploma.
Repórter Social - Os jornalistas ou os donos dos jornais?
Kucinski - Os jornalistas, não os donos. Os jornalistas não têm respeito com a pessoa do Lula. Há sempre um pressuposto de que ele vai falar besteira, vai errar, de que ele não conhece as coisas, usando como parâmetro um conceito de saber que é acadêmico. O Lula sempre foi tratado com discriminação e desrespeito. E em momentos cruciais, ele foi bombardeado com difamação. Eu me lembro que alguns momentos específicos, como aquela história do carro que ele vendeu ou dele morar numa casa de favor, coisa que milhões de brasileiros fazem. Tudo era distorcido para mostrá-lo como propenso à corrupção.
Repórter Social - Mas ele sabe que como figura pública e ainda mais como presidente que tem telhado de vidro. Ele mesmo já falou sobre isso quando ganhou as eleições.
Kucinski - Claro. Ele tem consciência disso. Esse trato que a imprensa dá ao Lula deveria criar nele uma rejeição à mídia total, mas ele se controla. Interpretando o Lula, eu acho que ele tem uma visão não muito positiva dos jornalistas, por causa de tudo isso. Agora, o erro que o Lula cometeu é quando ele virou presidente. O Lula não soube dissociar ele como pessoa, o político que vem sendo perseguido faz anos, da figura do presidente. O presidente tem por obrigação receber a imprensa. Não importa o que ela vai fazer depois. É uma obrigação institucional. O presidente tem que falar com a imprensa e, através dela, falar com a nação. Eu acho que faltou ao Lula e ao governo a percepção dessa obrigação. O governo começou a tratar mal a imprensa, não da forma que a imprensa tratava mal o Lula – ofendendo, xingando, discriminando – Muito pior, eu acho. Ele eliminou a necessidade da imprensa. Ela passou a se comunicar diretamente, através das falas do presidente, do café do presidente, dos discursos do presidente, que é sempre uma fala vertical. Ele fala e não se submete ao questionamento. O governo até poderia ter feito isso se, ao mesmo tempo, estabelecesse um rito de coletiva, como todos os governos de países importantes fazem. Uma vez, duas vezes por semana ou todos os dias. Sempre que tiver um visitante estrangeiro, fazer uma coletiva. Tem um acontecimento importante, uma coletiva. De uma forma ritualística. Sempre no mesmo lugar, com o escudo do Brasil atrás. E isso, o governo Lula não fez.
Repórter Social - Quem é contra este tipo de comunicação no governo? O presidente Lula?
Kucinski - A falha é do grupo que chegou ao poder. O PT tem uma tradição curiosa nessa análise. Ele tem propostas de políticas públicas para várias áreas: saúde, educação, agricultura, mas para comunicação não tem. As que ele tem, que os grupos de ativistas chegaram a fazer, nunca foram incorporadas pelo partido. Então já começou por aí. E quando se instalou o governo a comunicação foi... eu diria o seguinte: primeiro pela experiência de vida do Lula e a convicção que ele tem que se comunica bem diretamente com o povo, o que aliás acho verdade. Segundo, a presença do Duda Mendonça foi perturbadora. Ele passou a circular no governo de maneira informal. Ele não era ministro de nada, ele era contratado pelo governo para fazer ações de comunicação. Na minha opinião, ele não podia ao mesmo tempo ser palpiteiro do governo e quem ia fazer as ações. Nem as empresas privadas fazem isso. Você apresenta sua demanda, a empresa de comunicação apresenta a proposta e você aprova ou rejeita. Ali não. O Duda ficava dos dois lados do balcão. De maneira informal, mas isso aí prejudicou a percepção pelo governo que ele tinha de criar uma política de comunicação e colocar essa política em um plano estratégico .
Repórter Social - Como deveria ser este plano estratégico de comunicação? Deveria ser centralizado? Com quem?
Kucinski - Na forma como o governo foi criado inicialmente, isso deveria ser centralizado com o (ex-ministro) Gushiken, mas ele não era do ramo. A experiência dele é de campanha, não de comunicação do governo. Talvez por esse motivo e também por outros, ele foi tocando muito na chamada comunicação programada, em que você paga para comunicar, que são ações de propaganda. Agora, comunicação de governo não se restringe a isso. Deveria ter o mínimo de propaganda possível e ter outras formas, que são coletivas, folhetos de informação, relatórios, livros, análises, briefings com a mídia. Isso foi um dos problemas. Não houve essa percepção e não foi por falta de projeto. Eu mesmo fiz inúmeros projetos e foram todos engavetados, e também por uma outra coisa que aconteceu no começo do governo, que foi o seguinte: transferiu-se da vida política do PT um padrão de comunicação que é típico do político, que é a comunicação privilegiada. Quase todo o político tem algum jornalista que ele privilegia, e ele passa informação apenas para ele, há um acordo entre eles. Foi esse o padrão que se seguiu. O padrão de comunicação do governo Lula é por um lado a fala vertical do presidente e por outro os vazamentos, que se tornaram padrão de comunicação. Vazamento de assessores muito próximos. Os vazamentos desmoralizam o governo, desmoralizam os comunicadores, insuflam a luta interna. Passa-se a fazer uma luta interna através da mídia. Usa-se a mídia para disputa interna. Vira uma distorção. Os vazamentos ou conversas reservadas com jornalistas têm um papel importante, mas ele é acessório. É legitimo chamar um grupo de jornalistas, tentar contextualizar uma situação, baseado no off. Você num certo sentido dá uma orientação, elementos para jornalistas optarem pelas prioridades dele. Isso é legitimo e necessário, mas isso tem que fazer parte de uma política de comunicação. Com o tempo foram se perdendo outras coisas. Você não tem um sistema que decide qual é a fala do dia, você perde oportunidades. Na semana passada mesmo (a entrevista foi feita no dia 04 de dezembro), a CEF pela primeira vez abriu financiamento para a classe média de habitação, depois de 13 anos. Foi anunciado como coisa da empresa, da Caixa. Isso deveria ser coisa do governo, com o Lula anunciando. Não há o menor planejamento. A situação, em vez de melhorar, foi se deteriorando.
Repórter Social - O que aconteceu quando a carta crítica vazou para a imprensa em 2004? Como o senhor interpretou o fato?
Kucinski - Eu não dei bola. Certamente foi para me agredir. Quero deixar claro que o jornalista tem o direito de fuçar, descobrir e publicar. O erro está no fato de que a carta crítica é uma conversa reservada entre eu e o presidente que, por deferência dele, é compartilhada por alguns ministros. E alguém vazou. Hoje ela vai para umas 7 ou 8 pessoas. Mas é sempre considerada uma correspondência do presidente, que ele acha conveniente compartilhar. Eu não dei bola para esse vazamento. Tomo certos cuidados. Procuro ser contundente, ir ao ponto. Eu acho que tenho convicções muito democráticas sobre mídia. A carta crítica nunca tem nada de comprometedor. Um vazamento acaba não tendo efeito nenhum.
Repórter Social - O senhor critica a forma como a imprensa conduz a crise política em Brasília? O que falta para os jornalistas?
Kucinski - Está faltando tudo. Falta conhecer história, e falta a preocupação em conhecer. Falta operosidade. Eles não trabalham a sério as questões, não vão a fundo. Estou falando do jornalista, do repórter. Você tem aí uma grife, os colunistas. Estes têm conhecimento, bons contatos, cultura, bagagem. O problema é outro.
Repórter Social – Qual?
Kucinski - Eles têm um espaço privilegiado na imprensa porque defendem certas posições. Todos eles defendem a política econômica do Palocci, do Banco Central, defendem corte de gasto público, o Estado mínimo. Por isso, eles são premiados com espaços nobres. Há um processo de seleção na verdade. E eles estão em todos os lugares. Você abre o jornal, ele está no jornal. Você liga o rádio, ele está no rádio, você liga a TV, está na TV. Estão em todos os espaços ao mesmo tempo, porque eles estão falando aquilo que o poder quer que eles falem. Você tem exceções, mas elas são contadas nos dedos de uma mão, como o Luis Nassif, por exemplo. Em geral, eles são tolerados porque legitimam o jornal. Os dissidentes, os mais críticos também têm o seu espaço, mas é um espaço mais acessório, ocasional, calculado para que ele não influa no tom geral do discurso da mídia.
Repórter Social - E os repórteres?
Kucinski - O problema do repórter é que eles estão vivendo um momento muito difícil. De extrema competição, uma carga de trabalho que não deixa espaço para um trabalho aprofundado. E nesse ambiente, com essa carga, nas circunstâncias atuais, criou-se nesse reportariado uma postura muito igual de todos eles. Sendo todos iguais, todos correm menos risco. E qual é a postura igual? Todos acham que todo o governo Lula é corrupto, tudo que todos os ministros fazem é suspeito e qualquer coisa que se faça, alguma coisa tem por trás daquilo. Como o trabalho é uma pauleira, não dá tempo de investigar direito. Aos poucos a gente foi vendo que as acusações viraram matérias; as pautas viraram matérias. Matérias inteiras que deveriam ser o ponto de partida e elas são o ponto de chegada.
Repórter Social - Mas isso não é responsabilidade dos editores, diretores dos jornais?
Kucinski - Aí junta a fome com a vontade de comer. Eu não acho que eles (os repórteres) fazem isso porque mandam eles fazerem. Eles fazem isso porque estão possuídos por um sentimento genuíno de indignação. Eles se sentem cruzados de uma cruzada moral. Se você ousar dizer o contrário pode ser repudiado pela categoria. A palavra de ordem é acusar e linchar. Eu acho que daqui a 10 anos vai haver um mea culpa. Vão perceber que ¾ das acusações eram infundadas. Se uma pessoa vai falar com um ministro, isso não quer dizer que tem corrupção. Vão perceber que a tal empresa do Gushiken não teve sacanagem e afundou por causa dessa campanha. Vai ver quantas empresas já quebraram por causa dessa campanha
Repórter Social - E por que a imprensa entrou na campanha de linchar o governo Lula?
Kucinski - Porque o governo Lula decepcionou. Houve uma decepção que começou pequena e foi se aprofundando. E quando estouraram as acusações do Roberto Jefferson, que surgiu o cânone dessa lambança toda, aí a decepção foi total e não houve como esconder. O que está acontecendo é que todo mundo acha que tem que fazer uma acusação. Tem que fazer parte de um processo histórico, como se estivesse pertencendo a uma coisa que uma geração está fazendo: a nossa geração está derrubando um governo corrupto. Todo o jornalista se sente na obrigação de contribuir com isso. Eles acreditam que estão fazendo o bem. Eles estão percebendo a superfície das coisas e não os fundamentos. Eles não percebem que todos que estão acusando o PT sempre foram corruptos. Eles estão discriminando. Acusam o PT e não os outros. A história do Azeredo, das privatizações. Ela aparece muito minimizada, para legitimar a campanha contra o governo Lula. É um fenômeno interessante, parecido com o marcartismo, que aconteceu nos EUA. Anos depois veio a critica ao marcartismo, todo mundo que era vilão virou mocinho e vice-versa.
Repórter Social - Qual será o papel da imprensa na próxima eleição?
Kucinski - Não pensei nisso. (...) refletindo profundamente nos nossos papéis, dispostos a não cometer os mesmos erros que já cometemos e dispostos a não passar cheques em branco. Uma pessoa como eu tem uma história de jornalismo, de professor, tenho minhas convicções. Nós temos que levar muito a sério a própria história. Na questão do governo Lula: apostamos no governo Lula, eu apostei no governo Lula. Acho que o governo Lula tem muita coisa boa, mas fragmentada no campo do ensino, da agricultura familiar, da inclusão social. Infelizmente, muitas delas são reversíveis. Algumas não são, como o Prouni. A mídia não está cuidando disso, porque está obcecada pela denúncia. Uma coisa ruim que está acontecendo. Ela só trata de coisas institucionais, não trata do que acontece no dia-a-dia, no real. Mas, fundamentalmente, o nosso governo não foi capaz de mudar o país como ele prometeu. Mudar para sentir que estamos caminhando para alguma coisa, você não muda de um dia para o outro, mas você cria o sentimento da mudança e esse sentimento não foi criado.
Repórter Social - Em uma ocasião o senhor disse que o governo Lula deveria ser mais ousado. Em quê?
Kucinski - Na política econômica. Nós fomos ousados em alguns campos sociais, na política externa, mas absolutamente conservadores, retrógrados e, eu diria, até burros na política econômica. Esta política camuflada por um êxito nas exportações que não tinha nada a ver com a política econômica e muito mais com o cenário internacional. O discurso dominante acabou sendo esse, da continuidade, da estabilidade e não o discurso da mudança. Nós enterramos o nosso próprio discurso da mudança.
Repórter Social - O senhor acredita que a ministra Dilma Roussef virou porta-voz dos descontentes dentro do governo?
Kucinski - Não sei.
Repórter Social - O senhor pretende sair do governo?
Kucinski - Não vou responder.
Repórter Social - Última pergunta: por que o “chato do Kucinski”?
Kucinski - Ninguém tem coragem para dizer a verdade para o presidente claramente e eu digo todos os dias de manhã. Eu não estou lá para puxar o saco, elogiar. Eu também não estou lá para infernizar. Estabeleceu-se a partir de um certo momento que eu criei uma forma de tratamento da questão que era importante para o governo e era a única instância onde isso era feito, uma forma crítica que tinha que ser preservada. O Gushiken chegou a formular esta teoria de que eu tinha que ter liberdade total. Mas a turma fala “o chato” por um pouco de brincadeira. Por outro lado é uma coisa que não existe em qualquer governo, é muito raro encontrar.
1/10/2006

09 janeiro 2006

Brasil no Haiti: uma sinuca de bico

Antonio Brasil


O comandante das forças de paz da ONU, o general brasileiro Urano Bacellar, morreu no Haiti em condições, no mínimo, misteriosas. Ele foi encontrado com um tiro na cabeça no Hotel Montana em Porto Príncipe. As primeiras notícias destacavam a versão do exército brasileiro de “morte acidental”. Mas a hipótese mais provável é “suicídio”. O governo brasileiro, no entanto, deve acompanhar as investigações. Outro brasileiro, o embaixador Sergio Vieira de Melo, também morreu em importante missão para a ONU. Foi vítima de um ataque “suicida” em Bagdá. Certamente estamos pagando um alto preço pela nossa projeção internacional.
Mas para os jornalistas brasileiros, a tragédia no Haiti levanta questões que merecem ser analisadas e discutidas.
Primeiro: caso a versão de suicídio seja confirmada, o que teria levado um experiente general brasileiro a tomar atitude tão drástica? Depressão, despreparo ou decepção com o seu trabalho no Haiti? Algumas fontes também apontam as “pressões” dos americanos para que o general utilizasse as forças de paz para enfrentar “criminosos” haitianos. Ou seja, utilizar as tropas brasileiras e internacionais para eliminar as milícias que ainda apóiam o governo do presidente Aristide, deposto pelos militares dos EUA.
Segundo: qual seria o verdadeiro papel do exército brasileiro naquele país? Estamos a serviço da ONU ou dos interesses americanos? Quais são as expectativas e o que pensa a população local sobre a presença de tropas estrangeiras no Haiti?
Terceiro: afinal, por que estamos participando de uma missão “quase” impossível em um dos países mais pobres e violentos do mundo? Quais são os interesses geopolíticos brasileiros na região ou na ONU?
Bem sabemos que o governo Lula sonha com um assento permanente no conselho de segurança da ONU. Também sabemos que há uma evidente competição com o presidente Chávez, da Venezuela, pela liderança do populismo na América Latina.
Há alguns meses, alguns parlamentares brasileiros, como os deputados Fernando Gabeira e Babá, já tinham se pronunciado contra a presença dos brasileiros no Haiti. Afinal, lá, estamos diante de uma questão fundamental: somos forças de paz ou tropas de ocupação? Eis a questão!
Um pouco de História A história do Haiti é uma das mais heróicas e tristes do continente americano. Apesar de ter sido uma das colônias mais ricas e produtivas do império francês no século XVIII, os escravos haitianos conquistaram a independência em uma luta heróica contra os colonizadores. Mas eles pagaram um alto preço por tamanha “ousadia”. Sem reconhecimento ou apoio internacional, nem mesmo do governo recém-independente dos EUA, o Haiti virou o Haiti. Sinônimo de miséria absoluta, violência e instabilidade política. O país mais pobre do ocidente.
Em 2004, os americanos, sempre os americanos, depuseram o governo do presidente Jean-Bertrand Aristide. Não estavam satisfeitos com a sua administração e a violência crescente no país. Após o fait accompli, convocaram o apoio e as tropas da ONU para garantir as mudanças e as promessas de eleições democráticas. Situação muito parecida com outro país do Oriente Médio. É nesse ponto que o Brasil entra na história daquele país.
Líder mundial de seqüestrosChegamos a um dos países mais pobres e conturbados do mundo para uma missão praticamente impossível: preservar a paz e garantir a transição política. Pelo jeito, falhamos nos dois objetivos.
Após tantos meses de decepções e improvisações, hoje não contamos mais com a “simpatia” dos haitianos.
Em um jogo de empurra, as eleições nacionais no Haiti têm sido constantemente adiadas. Deveriam ter acontecido no último domingo. Os adiamentos aumentam ainda mais a tensão no país e a população tende a hostilizar e culpar as tropas estrangeiras.
Os haitianos estão decepcionados com a ONU e com os brasileiros. A situação, que já era ruim – sempre foi –, ficou ainda pior. Assim como no Iraque, o Haiti virou um inferno. Numa relação per capita, com uma pequena população de 8 milhões de habitantes, tem uma média de 40 seqüestros por mês, o Haiti se tornou líder mundial de seqüestros. Assim como o Iraque, não é um lugar fácil para o trabalho dos jornalistas. Não faltam desgraças e muitas notícias. O problema é o descaso ou desinteresse da mídia internacional. A triste verdade é que o mundo não parece muito mais interessado no Haiti. E muito menos no Brasil. Afinal, de onde menos se espera...
Despreparo militarE qual seria o treinamento militar, preparo ou apoio psicológico e experiência internacional dos nossos comandantes militares?
Acompanhei pelo noticiário brasileiro o treinamento (sic) das tropas brasileiras no Rio de Janeiro. Após algumas semanas de exercícios no estilo “Jipe tours” – aquelas visitas-relâmpago organizadas para turistas estrangeiros pelas favelas cariocas –, os militares brasileiros foram enviados às pressas para o Haiti. O general brasileiro deve ter sentido na pele a frustração de mais uma dos nossos projetos mirabolantes.
Mas não é a primeira vez que o Brasil envia tropas para forças de paz da ONU ou da OEA, Organização dos Estados Americanos. No passado, os militares brasileiros atuaram na região de Suez e na Repíblica Dominicana. Quase sempre a serviço dos interesses dos EUA. Mas não acredito que nessas missões algum militar brasileiro, muito menos um general, tenha se suicidado.
Sem correspondentes no HaitiEnquanto isso a cobertura brasileira, sempre voltada para temas únicos, tem desprezado a presença e os objetivos das tropas brasileiras no Haiti.Somos reféns das agencias internacionais americanas como a AP e a Reuters para obter noticias sobre os brasileiros no estrangeiro.
Nenhuma das nossas grandes empresas de comunicação brasileiras correspondentes permanentes no Haiti. Também não temos jornalistas “embedded” ou “embutidos” com as nossas próprias tropas no Haiti. Por que não temos pelo menos um jornalista de plantão no Haiti em regime de pool trabalhando para todos os veículos brasileiros interessados? Reduziria custos e evitaria ser novamente “pego de surpresa”.
Na cultura do “jeitinho” e da falta de planejamento, na hora H temos que confiar nos mesmos correspondentes que cobrem o mundo inteiro dos estacionamentos de Nova Iorque e Londres. Também recorremos a improvisações emergenciais e enviamos as nossas “estrelas” para fazer um jornalismo improvisado. Eles sempre acabam cobrindo os acontecimentos internacionais com grande atraso e sem qualquer contextualização. Uma cobertura internacional desleixada, amadoristica e acomodada. Uma cobertura que prefere culpar o publico, acusado de ignorância e desinteresse pela própria incompetência.
Sinuca de bico Mas temo que reconhecer que não eh fácil cobrir e entender os problemas do Haiti. Segundo a jornalista brasileira Cristiana Mesquita, editora regional para a América Latina e Caribe da APTN, Associated Press Television News e que jah esteve por diversas vezes no Haiti, deveríamos evitar comparações apressadas: “Apesar da musica do Caetano, o Brasil não é o Haiti. Só para você ter uma idéia, daqui a 20 anos, com muito trabalho e sorte, as favelas mais “barra pesada” de Porto Príncipe como Cite Soleil e Belair vão se parecer com a Rocinha no Rio de Janeiro. Não há comparação”. E acrescenta em tom de alerta: “As forcas da ONU não ousam entrar em certas favelas e enfrentar as gangues de simpatizantes pro-Aristide. Também não conseguem trazer paz para a população em geral. A pobreza eh proporcional à frustração dos haitianos. Os militares brasileiros estão numa verdadeira sinuca de bico”.
Mas em meio a mortes misteriosas e uma crescente decepção popular, para Cristiana, talvez ainda haja uma ultima esperança para os brasileiros: “Os haitianos adoram o futebol brasileiro. Vamos ver se este ano como em 94 as ruas do Haiti vão estar decoradas de verde e amarelo com milhões torcendo pelo Brasil na copa do mundo. Em vez de militares ou diplomatas, talvez devêssemos enviar jogadores de futebol para o Haiti”.
1/9/2006

Falta de planejamento só pode dar nisso

Eleno Mendonça


Desde que inventaram o Proálcool, no final dos anos 70, como mais um capítulo do milagre brasileiro, o combustível alternativo tem como características básicas a aprovação geral em termos ambientais e alternativos e a falta de produção firme e suficiente para acompanhar a demanda. A imprensa se esquece de lembrar isso de tempos em tempos, de falar que usineiro sempre se favoreceu de subsídios no Nordeste e que no Centro-Sul sempre atuou sem nenhum compromisso com o consumidor. Podendo ganhar mais, e a lei de mercado dá margem a isso, o setor avança e não quer nem saber das conseqüências.
Quem já passou por falta de álcool na bomba sabe o que estou falando. Mas a mídia abandonou algumas áreas do jornalismo, entre elas a de energia. Hoje ninguém mais se importa em ter na equipe alguém que faça tudo, como prego sempre, mas que tenha afinidade com fontes e segmentos ligados à produção de eletricidade, de álcool, petróleo, gás etc. Assim, como em toda crise, só quando ela surge é que se vai pensar quem poderia cobrir razoavelmente o assunto. O repórter ficará dois ou três meses nisso e seguirá para outra frente de crise ou para o dia-a-dia.
Bem, mas voltando ao caso do álcool. Quando as montadoras partiram sem medida para a produção dos modelos que rodam com gasolina e álcool ou com os dois, houve uma corrida dos consumidores. Acontece que se esqueceram de ver que o álcool já estava com sua produção no tamanho do mercado. Desta forma, ou se ampliava a área plantada ou daria no que deu. Hoje os preços sobem, o consumidor pagou mais por um benefício que não tem e a perspectiva não é animadora, na medida em que não se eleva a produção de álcool da noite para o dia.
Desta forma, é preciso alertar o consumidor quando há essas mudanças de conceito e de comportamento no mercado. Na sexta fizeram uma reunião, antes da qual se chegou até a falar em intervenção do governo no setor, o que seria um absurdo. Se vivemos a chamada economia de mercado, cabe à oferta e à procura a tarefa de adequação.
Bem, mas fizeram a reunião e, adivinhem, não deu em nada. É mais uma trapalhada do governo e que envolve a Fazenda, as Minas e Energia, a Agricultura. Se penderem demais para um lado, provocam desequilíbrios. Por exemplo, não dá para tirar o anidro que se adiciona à gasolina, haverá aumento da poluição. Mas o governo discute uma redução da mistura do álcool na gasolina, de 25% para 20%, o que também pode mexer com os preços da gasolina e afetar a inflação.
O certo é que historicamente os acordos em torno de preços firmados com usineiros sempre resultaram em rompimentos e crises no abastecimento. Esquece-se o governo que em crises passadas o mercado olhava para os preços do açúcar. Na usina, fazer açúcar ou álcool é só questão de virar a chave. Assim, o segmento produz aquilo que lhe é vantajoso. Agora é a hora de especular e aumentar o preço sobre o aumento da demanda do carro flex. Quando inventaram esse motor todo mundo deveria saber que não haveria álcool para acompanhar a força de vendas e do marketing que se formou em torno do modelo.
Agora, nova crise se avizinha. O Brasil, fortemente dependente de gás da Bolívia, onde o presidente boliviano ora adota um discurso de parceria ora de nacionalista estatizante, estimula o consumo do gás para os automóveis. O gás também vem tendo o uso ampliado nas residências e fábricas e as montadoras, de novo, trabalham pesado para criar o motor que roda com gasolina, álcool e gás. Ou seja, ninguém faz estudos da matriz energética, ninguém procura especialistas para perguntar se há base para isso. Depois, bem, depois é só ficar fazendo reuniões e ocupando espaço nos jornais, como consumidor no meio, sem saber de nada.
1/9/2006

Quem tem medo de Serra? Ou Lula, a Gilda dos mercados

Reinaldo Azevedo

Dia desses, um interlocutor me surpreendeu com uma afirmação categórica, surgida lá das certezas mais íntimas: “Serra é perigoso porque é contra o sistema de metas de inflação”. Contraditei, lembrando que jamais tinha lido qualquer coisa a respeito. Ainda tentei ponderar que se pode, e não estou dizendo que seja necessariamente o caso do tucano, ser favorável ao sistema, mas, eventualmente, crítico de sua aplicação e do número perseguido. Parece-me que o bom usuário do regime de metas de inflação buscaria um número que fosse econômica, política e socialmente factível, relevando, inclusive, desculpem-me este traço de atraso lamentável, as necessidades de crescimento da economia. Sei que até Alan Greenspan pensa dessa forma atrasada. Busco o exemplo do presidente do Fed porque pretendo ser um passadista algo influente. Ele não me parece um homem avesso à economia de mercado, entendem?O meu conviva, uma dessas pessoas que dizemos “de mercado”, não quis saber e tampouco confiou em mim: Serra seria contra o tal caminho e, se for eleito presidente, pode tentar inviabilizá-lo. Eu quis saber o que o tucano deveria fazer para acabar com aquela sua impressão: segundo ele, deixar claro, desde já, seu compromisso com o tal sistema.
Indaguei o que mais, segundo o meu companheiro de prosa, Serra deveria esclarecer para se tornar, então, um candidato com “menos risco” para os mercados. E ele foi me falando tudo, com o desassombro dos bons camaradas. Deveria vir a público para deixar claro que não pensa em nenhuma forma de interferência no câmbio, já que ele é flutuante, como nas boas economias do mundo. Ponderei que, “nas boas economias do mundo” — e os países asiáticos, além dos emergentes, estão aí para prová-lo —, há uma brutal interferência oficial na política cambial. E, nesse momento, percebi, que o exemplo “que vem de fora” é só um mito, quase um fetiche.
“Ah, mas nós não somos um país asiático.” Disso sei bem: informa-me a geografia. Eu só estava tentando descaracterizar uma afirmação genérica que é falsa. “Ademais — ponderei —, o BC brasileiro interferiu, e muito, no câmbio nos últimos tempos. Se não conseguiu chegar aonde queria, impediu que o real se valorizasse ainda mais.” Em suma, o Brasil é um país que vive atuando no mercado cambial. O diabo é que o faz quando já não adianta mais. Então, vejam só, não se tratava de um temor com base em qualquer risco objetivo. É só uma marcação dos mercados homem a homem. Para quê? Chegaremos lá.
A conversa ia bem. O que mais Serra deveria fazer para se mostrar “de confiança”. Ah, se ele anunciasse um BC independente, tudo seria diferente. “Independente” de quem?, eu quis saber. A resposta veio como uma lâmina: dos políticos. Entendi. Até havia quatro ou cinco meses, alguns iluminados diziam que o país cresceria 5% em 2005. Deve ficar em menos da metade, o que é humilhante em face do que acontece no mundo. E, claro, dois preços fundamentais como câmbio e juros deveriam ser decididos longe desse “nojo” que é a política! Ainda que os desdentados decidissem invadir o Palácio de Inverno e empalar o governante de turno, os bravos rapazes do BC estariam protegidos numa fortaleza legal. E pensar que foi Lula quem tornou esses demofóbicos tão ousados, não é mesmo?A conversa estava ficando cada vez melhor. Meu interlocutor também achava que Serra poderia dissipar algumas nuvens de desconfiança se deixasse claro que jamais pensaria em qualquer coisa como política industrial ou que nome possa ter uma intervenção do governo numa política para organizar o crescimento. “Até os EUA fazem isso”, lembrei. Mas nós não podemos. Os moços dos mercados ficam nervosos. Por isso, entendi, eles têm um certo temor de Serra, pouco importando que o país cresça menos do que o mundo há um quarto de século. Antes, éramos Belíndia. Não nos sobraram nem Bélgica nem Índia.
Chegando em casa, decidi fazer uma pesquisa. E fui ler os prognósticos dos bravos rapazes cuja inteligência obedece à, se me permitem, metafísica da PUC do Rio, hoje uma verdadeira escola de pensadores econômicos, o que não deixa de ser uma virtude. Mesmo que seja aquele pensamento. Li as graves advertências que faziam às vésperas da desvalorização do real, no começo do segundo mandato de FHC. Era inevitável, eles diziam: a inflação iria explodir. Estavam certos sobre isso como o crente convicto em uma religião qualquer. E, no entanto, operou-se o que poderia ser um milagre (a inflação não se mexeu), não fosse o fato de que não havia renda para pressionar a demanda.
É admirável, vá lá, que todos continuem fidelíssimos a seu credo, que lhes rende, de resto, influência e, não custa lembrar, uma vida bastante confortável. Muitos deles inventaram a sua própria maneira de viver Gramsci: “pessimistas no diagnóstico”, sempre recomendaram que não se mexesse em nada; “otimistas na ação”, tornaram-se todos ótimos banqueiros (ou seus subordinados de luxo).
Entendi o que o meu interlocutor queria. A conversa de “metas de inflação” era, e nem ele sabia, mero diversionismo. O que realmente o deixaria feliz seria uma Carta ao Povo Brasileiro, desta feita assinada por Serra, garantindo que nada vai mudar; que o Brasil está tão maduro institucionalmente, que um governo pode ser substituído sem que a gente nem mesmo note. Não faço juízo de valor nem entro no mérito, apenas lembrarei um caso que põe em debate a democracia e a estabilidade das regras: vejam o que George W. Bush fez dos números que herdou de Bill Clinton. Os superávits gêmeos viraram déficits gêmeos.
Ora, é óbvio que Bush traiu um compromisso de campanha. Se tivesse assinado uma “Carta ao Povo Americano”, as contas dos EUA poderiam até estar em melhor estado, mas sua democracia é que teria ido para o brejo. Quando o PT assinou aquele documento, expondo-se ao servilismo para ganhar as eleições (afinal, seus sequazes já tinham feito e vinham fazendo coisa bem pior), acenaram com a irrelevância da política, que passaria a ser, então, apenas o locus das trapaças, das vigarices, das manhas, das artimanhas, das bravatas. O valerioduto se encarregaria da canalha. O Brasil que interessa, o dos negócios entre o Estado e o seleto grupo de privados que conta, este ganhava uma blindagem contra qualquer interferência da política.
Esse papo, pois, de que Serra é contra o regime de metas é mero pretexto para tentar arrancar dele, precocemente, um “fica tudo como está”. E a mesma, se me permitem, malandragem tenta envolver o governador Geraldo Alckmin, a quem se atribuiriam, então, essas virtudes “continuístas”. São distorções (acho eu) opostas, porém combinadas.
O debate está no começo. Está nas páginas da edição de janeiro de Primeira Leitura. Ali se fala de caminhos, de alternativas, sem dar receita, é claro, já que receita não há. O que me parece insuportável é que pessoas que já erraram feio antes, de forma monumental, procurem justificar o desempenho medíocre da economia brasileira segundo o que seria o rigor acadêmico, fingindo-se de ortodoxos. Uma economia entupida de dólares, com superávit primário gigantesco, mas de má qualidade, paga os juros reais mais altos do mundo sob o pretexto de conter a inflação, mas estimula um programa de crédito que se volta para o consumo: a inflação não vai embora de vez, mas o crescimento desaba. Isso é ortodoxia? Isso, sim, é que é heterodoxia; isso, sim, é que é exotismo.
No fim das contas, o que surge como óbvio é que aqueles que fingem temer Serra têm mesmo um candidato não do coração, mas do bolso: Lula. Ele é a Gilda dos mercados. Esqueçam, rapazes: para certos negócios, jamais haverá um presidente como ele. Seja Serra, Alckmin, Garotinho ou o Cacareco. Como intuem que um segundo mandato do Apedeuta traria na rabeira uma grave crise, estão tentando alguma alternativa. Querem um novo Bel’Antonio, só que menos trapalhão. Se, na poesia, a vida é sonho, na política, a vida é lobby.
Ok, estão jogando o seu jogo. O que não quer dizer que devam contar com a nossa ajuda.
Publicado em 8 de dezembro de 2006.

ROBSON CRUSOÉ E A LIBERDADE

Rodrigo Constantino

“Whether or not I am my own master and can follow my own choice and whether the possibilities from which I must choose are many or few are two entirely different questions.” (Hayek)
Alguém diria que Robson Crusoé, isolado e sozinho em uma ilha, não seria um homem livre? Creio que todos reconhecem que Crusoé seria totalmente livre em sua ilha. Entretanto, os mesmos que entendem essa obviedade, partem em seguida para conceitos distorcidos de liberdade e justiça. Basta retornarem ao caso de Crusoé e a esta pergunta objetiva, que fica evidente os malabarismos conceituais e os eufemismos que adotam para a defesa de objetivos obscuros.

Crusoé poderia, por acaso, voar? Teria ele comida farta todos os dias, caindo do céu e dispensando seu esforço pela sua busca? Claro que não! Robson Crusoé seria totalmente livre na ilha, mas jamais estaria livre das leis da natureza. Por que então ele seria um homem livre? Porque não haveria coerção alguma imposta de fora, por outros homens. Eis o conceito objetivo de liberdade, tão ignorado atualmente. Crusoé não estaria livre dos riscos da vida, das leis naturais, de suas próprias fraquezas. Mas ainda assim seria um homem livre.

Quando extrapolamos o caso de Crusoé para uma sociedade, pouco muda. A liberdade pressupõe que os indivíduos estão livres da coerção exógena de outros indivíduos, sendo totalmente livres até não invadirem a liberdade alheia. Justiça, portanto, seria a garantia dessa liberdade, desse direito natural, e a proteção dos direitos de propriedade de cada um, começando pelo próprio corpo. Contratos teriam que ser voluntários, nunca impostos. E o governo garantiria a aplicação desses contratos. As trocas seriam voluntárias, não cabendo a ninguém ou nenhuma entidade decidir as coisas pelos indivíduos. Como não podemos falar em justiça para o caso de Robson Crusoé, fica claro que toda justiça é social. Logo, o termo “justiça social” não passa de algo amorfo, vago, usado justamente para a defesa do poder arbitrário de alguns, que se consideram iluminados o suficiente para decidirem pelos outros. Querem, na verdade, impor suas escolhas de forma autoritária, condenando a liberdade individual e o conceito objetivo de justiça.

Dito isso, fica mais fácil entender o real interesse por trás dos que posam de altruístas, defendendo direitos e mais direitos, jamais mencionando os deveres. Ora, Robson Crusoé teria direito à casa, comida e roupa lavada, por acaso? Teria ele “direito” à educação? Claro que seria ridículo falar em direito nesse caso, posto que Crusoé teria que conquistar tais bens desejados. E se Crusoé tivesse agora um vizinho? Faria sentido falar em direito à casa e comida? Não existe direito sem dever. O que os “altruístas” não querem deixar claro é que, para cada direito defendido, existe uma contrapartida. Alguém terá o dever de prover tal direito. A fuga para este problema foi encontrada na abstração do termo Estado. Este seria o responsável pelo atendimento das demandas, pela satisfação dos tais direitos. Mas o que é o Estado? Ele não passa de um ente abstrato, sem vida real. Um somatório de indivíduos, na verdade. E estes sim, trabalham, sentem e fazem coisas. Ou seja, quando falam em direitos para alguns indivíduos, estão necessariamente falando em deveres para outros indivíduos. No caso da ilha, para Crusoé ter o direito à moradia, seu vizinho teria que ter o dever de construir a casa. Os “altruístas” defendem, de fato, a escravidão de alguns em prol do privilégio de outros. E raramente são os próprios altruístas que estão dispostos a se tornarem escravos. Eles são os “sábios iluminados”, que conhecem o caminho certo, que possuem o dom do planejamento clarividente, que compreendem a “justiça social”, e portanto vão selecionar os beneficiados pelos direitos, assim como os escravos dos deveres.

Voltemos ao questionamento inicial: seria Robson Crusoé um homem livre? Todos que respondem na afirmativa, têm a obrigação moral de estender tal conceito de liberdade à sociedade. Livre é aquele que não está sujeito à coerção de outros homens. Livre é aquele que não tem a imposição de escolhas feitas por outros homens. Livre é aquele que é o próprio mestre da sua vida, independente da quantidade de opções de escolha que tem.

Publicado em 28/10/2005

06 janeiro 2006

Lula, Bial e o Procon...

Sérgio Luís Domingues
(*) Jornalista, consultor de Marketing e Comunicação e professor de Marketing. www.sergiodomingues.com.br

Que notícia é um produto à venda, a professora Cremilda Medina já havia deixado claro em seu livro homônimo, há mais de vinte anos. Mas o que não dá pra engolir é produto com defeito de fabricação, vendido como se fosse de primeira qualidade.
A entrevista de Pedro Bial com o presidente Lula, exibida no programa Fantástico do dia 1º de janeiro, durante 37 minutos o presidente mais se esquivou do que respondeu diretamente às perguntas feitas por Bial.
O ponto alto dessa “mercadoria” com defeito foi quando Bial perguntou se o PT não havia errado e Lula respondeu que o partido tem cerca de um milhão de filiados e não é justo punir a todos pelo erro de uma meia dúzia.
Ora, esta foi a fala que mais zombou da inteligência do telespectador. Para o presidente da República, o mais humilde e idealista dos filiados, sem direito a voz e voto na cúpula da legenda, tem o mesmo peso de seus amigos da executiva nacional que assombraram o país com o festival de corrupção explícita.
Resposta essa aceita placidamente por Bial, que teve o privilégio de representar o povo brasileiro, ávido por explicações sérias e convincentes por parte do presidente da República, eleito sob a égide da esperança de um Brasil livre de corrupção.
Ao menos, era isso que seu marqueteiro, Duda Mendonça, que confessou ter recebido por fora para elegê-lo, dizia; “a esperança venceu o medo”. Hoje, os ex-esperançosos sentem-se como numa horda de asnos, manipulados por espertalhões, já que não têm direito ao acesso a respostas simples e diretas por parte do presidente.
Bial por sua vez, quando escreveu a biografia de Roberto Marinho, já havia deixado tênue a fronteira entre ficção e realidade, uma vez que seu livro mais parece o início de um processo de beatificação do empresário.
O que a sociedade civil organizada e instituições como o Ministério Público têm de deixar claro é que a televisão brasileira é uma concessão do Estado para servir à sociedade e não somente para tornar milionários seus concessionários, que a utilizam, sistematicamente, como máquina político-eleitoral para perpetuação no poder.
Digo isso porque pesquisas revelam que a esmagadora maioria da população se informa através da televisão. Assim, ao assistir a uma entrevista pífia, o telespectador estará consumindo produto noticioso sem qualidade, imparcialidade e o respeito que o consumidor merece. Já que, até o momento, não é comum reclamar ao Procon sobre notícias estragadas.
Ao término da conversa fiada de Lula com Bial, fiquei pensando como devem ter sido os preparativos da entrevista. E me veio à lembrança o episódio protagonizado por outro jornalista global, Carlos Monfort com o então ministro Rubens Ricupero, no qual o principal atrativo foi o off, a conversa que antecedeu a entrevista oficial, ocasião em que Ricupero alegou não ter escrúpulos, e por conta disso acabou perdendo o ministério.
Caso houvesse premiação jornalística para “offs”, Monfort deveria ter ganhado o “prêmio essoff”, pois nunca uma conversa informal teve tamanho efeito devastador. Desta forma, como fomos privados da conversa que antecedeu a entrevista do presidente Lula a Pedro Bial, coube a todos as migalhas da entrevista oficial. E, parafraseando Ben Bagdikian, em sua obra “Máquinas de Informar”, “a eletrônica não tem moral. Tanto serve a homens livres quanto a ditadores”.
Portanto, ou o Brasil brada contra este conluio que visa à narcotização de todos, ou estaremos ainda mais à mercê de interesses nada éticos dos mandarins da televisão brasileira.

Sobre os isentos e ser “de confiança”

Por Reinaldo Azevedo

Um leitor chamado Adelino Alves manda um e-mail com elogios ao meu texto e à minha suposta cultura, mas está um pouco inconformado: “Como alguém como você pode confiar nos tucanos? Por que você não faz com eles o que faz, com justiça, com o PT?”. Adelino, agradeço os elogios, mesmo os imerecidos, mas sou forçado a dizer que talvez você me entenda menos do que supõe. Uma das razões por que não faço o que você sugere é que não quero que você me confunda com um “jornalista isento”, uma das boas farsas com que se corrói o caráter da imprensa e, ousaria dizer, até mesmo do leitor.
Já discordei do PSDB muitas vezes. E escrevi. Discordei ainda mais quando o partido estava no poder. Os dois primeiros anos de existência do site coincidem com os dois últimos do governo FHC. Assim, uma constatação: é mais produtivo à democracia bater em quem está por cima. Afinal, quem toma conta da máquina tem mesmo de atrair mais vigilância. É da regra do jogo. Haver mais críticas aos governantes do que aos oposicionistas é o normal em qualquer democracia do mundo. Mas essa é uma argumentação até tola de tão óbvia.
As minhas restrições ao PT são bem mais fundas do que uma mera discordância de prioridade, método ou o que seja. Dou um exemplo concreto: o caso Eduardo Azeredo (PSDB-MG) tem de constar do relatório final da CPI dos Correios. Mas não esperem de mim a afirmação de que o caixa dois que financiou a campanha derrotada do mineiro ao governo do Estado, em 1998, é parte do mesmo valerioduto que serviu ao PT. Não se lerá isso aqui porque é mentira. E não é uma mentira qualquer. Trata-se de uma mentira qualificada: é petismo.
Quem quer transformar o valerioduto-delubioduto num simples caso de financiamento irregular de campanha é o partido do governo, sob a batuta de seu líder maior: Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se de ecos daquela entrevista concedida na França, no mesmo período em que vieram a público as confissões cheias de mandracaria de Marcos Valério e de Delúbio Soares. O valerioduto consistiu numa prática sistemática de assalto aos cofres públicos para comprar votos no Congresso e para consolidar a base de apoio governista. Trata-se, nada menos, de fraudar um dos Poderes da República. Ainda que Azeredo tivesse usado o dinheiro do caixa dois para comprar uma Land Rover, seu carro seria diferente daquele que Silvio Pereira ganhou de uma empreiteira.
A “isenção” que iguala crimes desiguais, emprestando a mesma gravidade ao que tem origem e conseqüência imensamente distintas, não é isenção, mas velhacaria. Trata-se de um truque para seduzir e, claro, enganar a opinião pública. Mas há mais: é preciso supor também que não ataco com a mesma dureza tucanos ou pefelistas porque eu possa concordar mais com eles do que concordo com o PT. Boa parte do jornalismo, alinhado com a esquerda, sempre foi mais próxima do PT do que desses outros partidos. E não se via nada de estranho naquilo. Ao contrário até: o jornalista ganhava uma espécie de passaporte moral: estava do lado do bem. Incluam-me fora dessa “isenção”. Tenho claro que sou dos poucos jornalistas que admitem, sem rodeios e sem achar que comete qualquer crime, ter uma ideologia, uma visão de mundo, uma, digamos, utopia política. Que, definitivamente, é distinta da metafísica esquerdista e politicamente correta que faz fortuna crítica nas redações.
Alguns leitores e telespectadores ficaram algo chocados quando eu disse, no programa Manhattan Connection que foi ao ar no dia 25 do mês passado, que considero Primeira Leitura uma revista alinhada com a “direita democrática”. Um bestalhão, dizendo-se professor, tentou me esculhambar (veja na seção de Cartas). Ele acha que isso não existe. Deve ensinar a seus pobres alunos que só se pode ser democrata sendo de esquerda. Imaginem vocês: Churchill, um esquerdista! E como expliquei tal posição na TV? “Não estamos entre aqueles dispostos a sacrificar leis democraticamente votadas em nome de entendimentos particulares do que seja justiça social”. Ora, com efeito, isso está mais para Margaret Thatcher do que para Hugo Chávez, entendem? E eu me orgulho disso.
Assim, é natural que o petismo, com seu esquerdismo bocó, com sua vocação, ora desmoralizada, para se construir como partido único (e o valerioduto era parte, apenas uma parte, dessa construção), gere em mim um estoque de restrições bem maior do que o tucanismo ou o pefelismo. Se alguém espera que eu distribua igualmente porradas — para provar que sou equilibrado e não tenho lado —, pode tirar o cavalo da chuva e parar de me ler. Não vou fazê-lo. Mas também não me pegarão na fila para tomar a hóstia consagrada das “verdades eternas” da economia ditadas pelo Evangelho da PUC do Rio, como, talvez, fosse de esperar de um “bom “direitista.
Mesmo as publicações mais azedas com os desacertos do lulo-petismo preferiram ignorar, ao longo de três anos, que Antonio Palocci era parte da mesma equação. Isso está na história: os “direitistas” site e revista Primeira Leitura, durante um bom tempo, nesse particular, falaram sozinhos. Ou, pior ainda, na companhia incômoda da esquerda, que queria detonar Palocci, mas por motivos distintos. Muitos deles estavam de olho no dinheiro público para fazer populismo... caro. Nós, ao longo desses anos, sustentávamos que política de arrocho fiscal não é política de crescimento; tampouco são questões antitéticas: são, como vocês sabem, termos distintos de uma mesma equação geral. No particular da política econômica, por exemplo, Primeira Leitura e PSDB (com raras exceções) tiveram posturas flagrantemente distintas.
O fato é que estou falando de dois veículos, site e revista, que ousam ter uma visão de mundo e explicitá-la. Se a parte informativa de ambos reproduz o debate como ele se dá, com todos os seus matizes, não há um “outro lado” para a opinião. Ele costuma ser nada além de covardia. Aqui vocês não lerão que “política é como nuvem; muda sempre”. Alguns analistas é que gostam de nublar o seu texto com o famoso “nem isso nem aquilo” ou com o não menos freqüente “pode ser isso, mas também o seu contrário”. Nesse ambiente, há algumas ousadias minhas que não traduzem, necessariamente, uma opinião consolidada de Primeira Leitura. Seja lá qual for o pecado que eu cometa, jamais será o da ambigüidade estudada.
Caro Adelino, minha restrição essencial ao PT existe muito antes de seu espantoso show de incompetência e não se resume, pois, às provas incontestes de má gerência. Até trato disso aqui e ali, mas não é a praia argumentativa que mais gosto de freqüentar. Outros tratam desse assunto com muito mais competência do que eu. Meu ponto sempre foi outro: um dos principais partidos do país não acata como inegociáveis os valores da democracia. E esse desacato se revela em sua prática cotidiana, rotineira, seja se disfarçando de uma ONG supostamente dedicada a cuidar de moradores de rua, seja aparelhando fundos de pensão, seja imaginando que a Polícia Federal pode substituir o Tribunal Superior Eleitoral.
Até que PT e PSDB tiverem a configuração que têm, com suas respectivas práticas políticas, por mais divergências que possa haver entre o que penso e o que pensam as duas legendas, não há a menor chance de eu criticar ambos igualmente. Jamais serei este “jornalista isento”. Eu não quero ter esse prestígio e, se querem saber, alimento um indiscreto desprezo por quem o cultiva. Assim, Adelino, a depender das exigências que você faça para confiar num analista, eu o advirto: não sou de confiança.
[reinaldo@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 5 de janeiro de 2006.

04 janeiro 2006

Serra ou Alckmin? Ganhar para quê? - Por Reinaldo Azevedo

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Chega às bancas na sexta-feira próxima a edição de janeiro de Primeira Leitura. O texto que merece o principal destaque da capa trata dos caminhos possíveis para o Brasil sair do atual impasse, que lhe impõe juros estratosféricos, superávit primário alto e de má qualidade e endividamento interno ainda explosivo. O Brasil conseguiu ter um pedaço dos problemas asiáticos — excesso de dólares —, mas com juros de país bananeiro. À diferença dos asiáticos, no entanto, mantém a sua moeda apreciada. Na combinação das duas coisas, liquidou uma fatia de sua indústria. Então é pior: nem mais os bananeiros estão nessa.
Mais: o país é presa de alguns mitos. O principal deles dá conta de que não se pode operar por aqui com juros reais abaixo de 10%, ou a inflação explode. É uma sentença de crescimento medíocre para sempre. Há 25 anos, indo para o 26º, o país cresce abaixo da média mundial. E muito abaixo nos três anos de governo Lula, embora o mundo viva um momento raro de expansão, especialmente favorável ao país. O atraso a que Lula nos condena é monumental. Pois bem: dado o quadro, o que fazer?
Primeira Leitura decidiu reunir três economistas — Luiz Carlos Mendonça de Barros, Yoshiaki Nakano e Luiz Fernando Figueiredo — para debater tais questões. O resultado está em 14 páginas da revista. Não vou aqui antecipar conclusões, até porque o trabalho, longo, merece leitura detida. Uso a capa da revista como gancho para comentar assunto ainda mais grave e urgente: estou um pouco ressabiado com a baixa qualidade do debate no país, perdido entre o baixo moralismo bocó e temores mais do que interessados. Mesmo na oposição, as conversas são tímidas, quase sussurradas. Quero dar seqüência a este texto indagando: vencer para quê? Sim, é isto mesmo: por que as oposições — especialmente o PSDB, que deverá se aliar ao PFL — quer o governo do Brasil?
Serra: candidato ou não?Antes que volte ao ponto anterior, algumas digressões. Chega a ser acintoso que uma parte da mídia dedique papel, tinta e, na hipótese virtuosa, neurônios, a debater se José Serra pode ou não deixar a Prefeitura de São Paulo para concorrer à Presidência da República. O meu candidato — não o de Primeira Leitura necessariamente — é quem reúne 1) as melhores condições para vencer Lula (ele é o mal mais grave, agudo e que pede solução urgente); 2) condições intelectuais, técnicas e políticas para tirar o país da mediocridade em que se encontra, especialmente perversa, como sempre, aos pobres. Não há ordem de importância aí: são condições co-ocorrentes.
Serra é quem mais se aproxima do perfil que imagino adequado ao país? É. Estou pouco me lixando se assinou um documento, compelido pelo ato teatral de um jornalista, dizendo que ficaria no cargo por quatro anos. De lá para cá, a história do Brasil foi colhida por um verdadeiro tsunami, que fez desaparecer uma parte do que se supunha ser a elite política (eu sempre achei que ela não servia nem para catar caca). Quando Serra fez aquela afirmação, respondia a uma campanha do PT (de que aquela assinatura acabou servindo como peça publicitária) que tinha como objetivo garantir mais um ano e três meses de mandato para Marta. Se a manobra petista tivesse sido bem-sucedida, seria ela, é claro, a deixar a prefeitura para disputar o governo de São Paulo. Curioso que não se tenha exigido da então prefeita que assinasse um papelucho.
Ética chinfrim É um debate ridículo, mesquinho. Faz-se um esforço patético para tentar reduzir a ética na política a uma trama de caráter puramente publicitário. Até parece que o país pode se dar ao luxo de dizer para Serra: “Não, você não pode ser candidato. Assinou um papel”. Por que os Moralistas dos Santos dos Últimos Dias não viram a obra de Antonio Palocci, no governo Lula, segundo o documento, aquele registrado em cartório, em que ele prometia concluir o mandato na Prefeitura de Ribeirão Preto? Que cobrança “ética” é esta que é seletiva, que só atinge uma personalidade da vida pública brasileira?
O outro postulante tucano é o governador Geraldo Alckmin (SP). Seria um desastre para o Brasil? A julgar por sua trajetória, não. Eu não teria nenhum problema em votar nele contra Lula. Creio, no entanto, que o embate interno, no PSDB, deve se dar segundo um critério principal: qual dos dois consegue desarmar, com mais propriedade e conhecimento de causa, a ratoeira em que se encontra a economia brasileira, esta mesma que, ao ver o risco furar o piso dos 300 pontos, se põe na iminência não exatamente de uma solução, mas de um novo problema? Afinal, vem por aí uma nova enxurrada de dólares. Dadas a experiência e a formação pregressas, acho que, hoje em dia, é Serra. Isso não quer dizer que Alckmin não pudesse, eleito presidente, contar com o concurso do PSDB, inclusive do atual prefeito, para dar respostas adequadas.
Entendam, pois, o ponto: estúpida é a criação de um lugar retórico que, a rigor, não existe. Ora, se o cargo de Serra é mesmo um impedimento para que pense na Presidência da República, então o candidato tucano já está decidido: é Alckmin. O que me causa estranheza é que veículos de comunicação falem da suposta impossibilidade de o prefeito se candidatar à Presidência sem, no entanto, assumir a defesa do nome do governador, o que passa a ser um corolário óbvio. A prática corresponde, é claro, a enganar o leitor/eleitor com um suposto critério. Critério que remete a uma só escolha é indicação. Como vêem, não há muito a interpretar no meu texto. Ele não poderia ser mais claro: dados os desafios, considero que Serra é a melhor resposta que o processo político pode dar ao país.
Será esse o caminho tucano? Não sei. O próprio prefeito parece hesitante em razão dessa patrulha de moralismo sub-udenista que toma alguns setores da mídia, que transformam em imperativo ético um critério ditado por um misto de oportunismo e covardia: por oportunista, alimenta-se a suposta interdição a Serra porque se considera que há uma alternativa: Alckmin; por covarde, esquece-se de dizer ao leitor/eleitor que, não houvesse a oportunidade, a coragem da interdição se transformaria no medo do desconhecido. E então se pediria a Serra que aceitasse o desafio.
Reitero: acho que Alckmin tem credenciais para disputar a Presidência. Creio que reúne condições para vencer Lula num eventual segundo turno, embora, é claro, seja preciso passar pelo crivo do primeiro. E esse primeiro embate passa pela escolha do candidato do PMDB. Alckmin tem-se movimentado muito, conversado com muita gente e certamente tem hoje mais clareza do que antes dos problemas nacionais e das respostas necessárias.
Mas é preciso que, desde já, candidato ou não, busque se livrar de uma camisa-de-força que lhe é oferecida por alguns “amigos”. Eu me preocupo um pouco quando vejo setores do financismo a expressar a sua preferência por ele. Ninguém pode dispensar apoios, é óbvio. Mas também é óbvio que se está tentando criar a imagem de um “Alckmin confiável” em contraste com um “Serra menos confiável”.Ora, “confiável” a quem, cara-pálida? Mais ainda: tenta-se opor um “Alckmin menos intervencionista” a um “Serra mais intervencionista”. De que “intervenção” exatamente se está falando? Seria algo alheio a um necessário choque de capitalismo pelo qual o país precisa passar? Quero crer que não. O eleitor precisa ser informado: tais movimentações buscam interferir na decisão do partido. São manobras que servem para fazer pressão. Todos sabem que a eventual eleição de um tucano, seja quem for, não representa nenhum risco aos mecanismos normais de mercado.
Construindo identidades Ora, essa construção de identidades eleitorais à revelia, muitas vezes, das próprias personalidades dos pré-candidatos, como se vê, nada tem a ver com o cumprimento de compromissos. Trata-se de um problema que funde, a um só tempo, um tanto de ideologia e muito do alinhamento prévio de interesses objetivos. Parece-me que nenhum dos dois tucanos merece que se deprede assim a sua biografia: No caso de Alckmin, com a suposição de que seria mais receptivo a “sugestões”, como se seu conteúdo estivesse ainda em formação e sujeito, pois, à argumentação eficiente de lobbies organizados; no caso de Serra, com a suposição de que é irascível e não ouve sugestões. Parece que as respectivas trajetórias desautorizam as duas hipóteses.
Se eu fosse um convencional tucano, dadas as circunstâncias e os desafios do país, escolheria Serra como candidato à Presidência, especialmente porque ele poderia ser um fator para atrair votos nos Estados, em vez de se tornar caudatário das forças locais, e mandaria os Udenistas dos Santos dos Últimos Dias plantar batatas com seus papeluchos que têm vergonha de dizer o nome do que praticam.Como já disse, oportunismo e covardia não são imperativos éticos. Mas é claro que não seria uma escolha que inviabilizasse alternativas — e é óbvio que, nesse caso, o PSDB está bem: conta com dois candidatos viáveis. Na esteira da histórica desconstituição de dois mitos fraudulentos — o PT e Lula —, o PSDB pode voltar à Presidência da República. E só vai conseguir fazê-lo se estiver unido. Mas, insisto, esta é só a primeira parte do problema.
Ganhar para quê?Quero agora voltar ao ponto inicial: ganhar para quê? Estamos conformados em crescer a metade do que cresce o mundo e a América Latina e um terço (às vezes, menos) do que crescem os países emergentes? O país bate cabeça nos fóruns multilaterais; vive impasses no Mercosul e na Alca; perde-se numa retórica entre oca e autonomista, sem estratégia ou plano de longo prazo; o superávit primário, inédito, é de má qualidade, conseguido à custa de um sistema tributário que beira a prática confiscatória, com serviços públicos que nem remotamente compensam o que a máquina do governo, com gastos crescentes, arranca da sociedade; o emprego, por causa do baixo crescimento, está muito atrás do que exige a sociedade; a nossa política macroeconômica dita “responsável”, a um só tempo, usa os juros para conter a inflação e o consumo e estimula mecanismos de crédito que estimulam o... consumo e a inflação; o país está à espera de uma reforma trabalhista que possa desonerar a formalização do trabalho; a Previdência, quebrada de novo, pede uma nova rodada de reformas que não pode estar descolada de um planejamento mais amplo da economia.
Não é verdade, mesmo!, que o país demanda apenas um choque gerencial, como se fosse uma empresa em que todas as condições estruturais estivessem dadas, só faltando um pouco mais de competência e de bom senso. O desafio é bem maior. Não sou e não quero parecer oblíquo. Sei bem que é Alckmin quem mais recorre à imagem da “boa gerência”. Creio que deveria parar com isso.
Pode estar criando para si mesmo um limite que terá de necessariamente transgredir caso venha a ser o candidato tucano e, depois, vença a eleição. Se não o fizesse, não teria por que ser presidente. O choque terá de ter outro perfil: é de governança. A infra-estrutura brasileira, da econômica à social, vive dias de desordem. É preciso mudar mais do que os costumes. Como fica claro na matéria de capa desta revista de janeiro, é preciso mudar as prioridades.
Eis aí Este é o debate que tem de ser feito. Ora, não duvidem de que não é pequeno o trauma pelo qual pode passar o país com a derrota do PT — com a eventual vitória, seria ainda maior: sobreviria uma crise de grandes proporções, e isso é certo como o dia. Para muita gente, o mito do partido como última salvação (mito que certa mídia e certa crônica política ajudaram a alimentar) vai se desfazer, sim, o que não quer dizer que tanta disposição para a crença vá escolher o caminho da racionalidade.
Ganhe ou perca o PT, terá encurtado em muito a paciência da população com os governantes. Uma impaciência que será historicamente justificada, posto que Lula só prometia amanhãs sorridentes, sem nunca dizer como chegar lá. Se o PT vencer, certo como o dia, retoma o seu projeto autoritário, sabe-se lá com qual feição. Ele teve 23 anos para se converter à democracia e não o fez. Por isso apelou ao valerioduto e à compra do Parlamento. Não serão dois anos de crise política a lhe forçar a conversão. Se, o que é mais provável, o PT perder, o próximo presidente terá de enfrentar uma sabotagem organizada ao novo governo. Os aparelhos do petismo estão todos aí, hoje mais fortes do que antes. Contam agora com “menas gente”, como diria Lula, mas estão muito mais enfronhados na máquina do Estado.
Esse é o debate que me interessa. Já disse qual seria a minha escolha: Serra. Já disse que acho que Alckmin pode fazer um bom governo caso chegue lá. E nada disso é o mais importante do texto. O que acho insuportável é, dado o tamanho do desafio, transformar uma peça publicitária da campanha de Marta Suplicy em 2004 — que resultou no tal papelucho assinado — num dado definidor do futuro do país. Por que essa neo-UDN descerebrada não cobra respostas aos problemas do país, tanto do petismo como dos tucanos? Sei bem que a resposta está na minha pergunta: porque se trata de uma UDN descerebrada.
Ademais, se Serra for candidato, que seus eleitores decidam se é o caso de votar no PT em 2006 tendo considerado que não era o caso de fazê-lo em 2004... É um debate para lá de ridículo. Serra ou Alckmin, o que me interessa é saber quem vai ter coragem de mudar. Sem medo de ser feliz! Serra ou Alckmin, o que me interessa é que a escolha seja feita respondendo a uma pergunta: “Ganhar para quê?”.